Em Porto Velho -RO trabalhadores e estudantes resistiram ao Golpe Civil Militar de 64

Por Zola Xavier da Silveira *

 

          A preparação do golpe contra o governo legítimo do Presidente João Goulart já vinha sendo articulada há vários anos. Em 25 de agosto de 1961, com a renúncia do presidente Jânio Quadros, as forças conservadoras tentaram impedir a posse do vice-presidente João Goulart. No entanto, o forte movimento conhecido como Campanha da Legalidade, organizado pelo então governador do Rio Grande do Sul, Leonel de Moura Brizola, mobilizando setores populares e estudantis em defesa da Constituição, impediu a consumação do golpe naquele momento.


Presidente João Goulart no comício da Central do Brasil - 1964

          Mas os golpistas não desistiram e voltaram em 1964. Para muitos, a gota d'água se deu na sexta-feira, 13 de março, no Rio de Janeiro, com o histórico Comício da Central do Brasil, ocasião em que João Goulart anunciou o envio das Reformas de Base para o Congresso Nacional, que, entre outras medidas, previam a Reforma Agrária e o controle da remessa de lucros que as multinacionais enviavam para suas matrizes. Essas bandeiras mobilizaram de norte ao sul do País vastas camadas populares, no Território de Rondônia não foi diferente.  

          No então Território Federal de Rondônia, o golpe de 64 deu oportunidade para que as forças da oligarquia aluizista, derrotadas pela Frente Popular nas eleições de outubro de 62, tivessem um ajuste de contas com seus adversários. Para tanto, participaram ativamente da preparação do golpe, engrossando as investidas pela deposição do presidente João Goulart. Usaram largamente seu jornal, O Guaporé, que, em uma de suas edições, às vésperas da consumação do golpe, fez referências ao deputado federal Dr. Renato Clímaco Borralho de Medeiros, maior liderança popular do antigo Território de Rondônia, apontando-o como comunista com a seguinte manchete: “AGENTE DE MOSCOU REPRESENTANDO O TERRITÓRIO”. E prosseguiu: “Apelamos para quem de direito, lançar as vistas para o nosso Território, e tome as medidas necessárias para o afastamento definitivo deste perigoso representante vermelho”. Mais adiante, pedia sua cassação: “A cassação do mandato, acreditamos, deverá ser um dos primeiros passos a ser dado. Esperamos que se concretize.”

  

RESISTÊNCIA

 

          Num contexto de forte repressão e perseguição política, os estudantes de Porto Velho não ficaram omissos. Sob a direção da União Rondoniense dos Estudantes Secundaristas – URES, somaram-se aos trabalhadores e às lideranças populares na resistência ao regime que se anunciava.



João Leal Lobo e Zola Xavier da Silveira na Gare Central da EFMM - 2009


           No dia 27 de março, portanto seis dias antes da deposição de Jango, o presidente do Comando Territorial dos Trabalhadores – CTT, José Ferreira, e o presidente da URES, João Leal Lobo, convocaram a população para um histórico e simbólico ato público de resistência democrática que ficou marcado na memória política e social do então Território Federal de Rondônia. O evento aconteceu no auditório da tradicional Escola Normal Carmela Dutra, um dos mais respeitados estabelecimentos de ensino de Porto Velho à época, e teve como tema “A Realidade Brasileira”. Um dos principais oradores foi o deputado federal Almino Afonso, líder do Partido Trabalhista Brasileiro – PTB na Câmara dos Deputados e ex-Ministro do Trabalho do governo João Goulart, amazonense da cidade vizinha Humaitá, com fortes ligações com Porto Velho, onde seu pai fora prefeito no início dos anos trinta. Figura de grande expressão nacional no campo progressista, sua presença em Porto Velho evidenciava a articulação entre as lideranças locais e os movimentos que buscavam sustentação política fora dos grandes centros para garantir a manutenção do governo Goulart.


Deputado Almino Afonso - Sindicato dos Bancários RJ - 1963


          O ato contou ainda com a participação do prefeito de Porto Velho, Raphael Jayme Castiel, de representantes do governo territorial e de diversas entidades estudantis e sindicais, revelando a amplitude do movimento em defesa da legalidade democrática. Esse era o clima político pré-golpe vivenciado pela população rondoniense: um misto de efervescência popular, esperança nas Reformas de Base e tensão diante da forte ameaça do golpe e de iminente ruptura institucional.

          Os ecos da mobilização a nível nacional reforçaram a resistência em Rondônia, ainda que, poucos dias depois, o golpe fosse deflagrado, silenciando — mesmo que temporariamente — as vozes que insistiam em defender a democracia. A resistência, embora reprimida, protagonizada por trabalhadores, camponeses, lideranças populares e estudantes, deixou marcas profundas na memória política do Território.


GREVE GERAL

          Nos últimos dias que antecederam o golpe militar, o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), sediado no Rio de Janeiro, convocou uma greve geral em todo o País, numa tentativa desesperada para garantir a manutenção do governo João Goulart e frear o avanço do movimento golpista que já se articulava nos quartéis e nos setores conservadores da sociedade.

          Em sintonia com o movimento nacional, os ferroviários da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM), uma das mais simbólicas e lendária vias férreas do País, protagonizaram um dos momentos mais significativos da resistência popular em Porto Velho. Atendendo ao chamado do CGT, aqueles trabalhadores habituados a lutar contra as adversidades da região e as precárias condições de trabalho, decidiram, pela primeira vez em sua história, aderir a uma greve de caráter nitidamente político, transcendendo as tradicionais reivindicações corporativas, para assumir uma postura de defesa da democracia e das Reformas de Base. Não se tratava apenas de pautas salariais ou melhorias nas oficinas; era uma tomada de posição clara em defesa do governo de João Goulart. O gesto dos ferroviários funcionou como uma centelha em meio dos trabalhadores de Porto Velho.

           O movimento grevista rapidamente se alastrou pela cidade, conseguindo a adesão de outras categorias. Os bancários fecharam as agências, os estivadores suspenderam as atividades portuárias às margens do Rio Madeira, e os eletricitários cruzaram os braços. A energia elétrica foi drasticamente racionada, e até mesmo o fornecimento de água foi interrompido atingindo o tradicional bairro Caiari, onde concentravam-se grandes números de funcionários públicos e da Madeira- Mamoré, num claro sinal da força organizativa dos trabalhadores locais e da extensão da paralisação.

          Diante da adesão crescente e da necessidade de coordenar os rumos do movimento, a direção do Comando Territorial dos Trabalhadores precisou buscar um local mais amplo para coordenar os rumos da paralisação. Assim, promoveu a transferência da sua sede para o Danúbio Azul Bailante Clube, que na época, ficava localizado na esquina das ruas Carlos Gomes com Tenreiro Aranha, no coração da cidade. O clube tornou-se o epicentro da resistência civil na cidade, transformando o que, inicialmente, seria uma reunião de dirigentes em uma verdadeira assembleia popular permanente transcorrida entre os burburinhos de preocupação e esperança. 


A NOITE DA VIGÍLIA E A CHEGADA DO GOLPE


          Na noite de 31 de março, centenas de pessoas permaneceram aglomeradas no Danúbio Azul e em suas imediações, tentando captar, em meio ao chiado das ondas curtas dos rádios, os movimentos de resistência que se esperava acontecessem em todo o País. Acreditava-se que a classe trabalhadora organizada dos grandes centros, como Rio de Janeiro e São Paulo, sairia às ruas para defender o governo e as Reformas de Base. Contudo, à medida que as horas passavam e as informações sobre movimentações militares em outros estados se confirmavam, somadas aos primeiros rumores de tropas em deslocamento nas ruas de Porto Velho, a multidão foi aos poucos se dispersando. As lideranças sindicais, avaliando a correlação de forças desfavorável e temendo pela integridade física dos manifestantes, orientaram a retirada pacífica. A resistência, naquele momento, deixava as ruas para se recolher ao silêncio tenso dos lares, onde cada batida na porta poderia significar a chegada da repressão.

          O clima de terror imposto pelos militares foi, gradativamente, se abatendo sobre a cidade, levando pânico entre as pessoas que tinham ligações, ainda que remotas, com o deputado Renato Medeiros. O medo não escolhia hora nem lugar: instalou-se nos lares, nos locais de trabalho e nas conversas pelos bares e esquinas.

          O dia seguinte, 1º de abril, transcorreu com uma aparente normalidade que contrastava violentamente com a efervescência das semanas anteriores. As ruas estavam quietas, o comércio funcionava com cautela, e as pessoas se entreolhavam em busca de sinais do que estava por vir. Criou-se, assim, uma atmosfera de suspeição generalizada, onde vizinhos desconfiavam de vizinhos e o silêncio tornou-se mecanismo de sobrevivência. A cidade, antes marcada pelo apito dos trens da lendária Ferrovia do Diabo, emudeceu-se.

 

O TERROR NOTURNO E AS CASSAÇÕES


         As prisões eram realizadas sempre à noite, e, na manhã seguinte, os boatos se espalhavam pelas ruas como fogo em palha seca — fulano foi levado, beltrano também, a casa de sicrano foi invadida. Ninguém estava seguro, e a incerteza paralisava qualquer tentativa de reação. 

        Militares do exército sob o comando do Interventor, capitão  Anachreonte Coury Gomes  bateram à porta da casa do vice-prefeito de Porto Velho, senhor Carmênio Barroso, e o conduziram sob escolta até o Palácio Getúlio Vargas, sede do poder executivo territorial.

          No interior do Palácio, Carmênio foi submetido a um interrogatório conduzido em tom agressivo pelo interventor militar.  Décadas depois, em entrevista concedida a este escriba, Carmênio comentou relembrando o episódio com a mesma indignação dos dias vividos: “parecia que ele estava se dirigindo aos seus soldados e não a uma autoridade civil”. Carmênio, que antes de assumir suas funções na prefeitura, fora uma figura atuante como presidente da União Rondoniense dos Estudantes Secundaristas (URES), viu sua trajetória política ser abruptamente ceifada. Foi cassado, transformado em um proscrito em sua própria terra, teve seus direitos políticos suspensos e amargaria décadas de silêncio e ostracismo, e somente muito mais tarde, já com os cabelos brancos e o país redemocratizado, é que recebeu a anistia, reavendo simbolicamente os direitos que lhe foram tomados naquela noite de sombras e silêncio forçado.

            O prefeito de Porto Velho, Raphael Jayme Castiel, também foi alvo da perseguição furiosa dos novos detentores do poder. Sua filha, a escritora Sandra Castiel, em conversa com este escriba, relembrou a dor familiar com palavras carregadas de emoção e lucidez política, fazendo o seguinte comentário: “Foi acusado de corrupção. Era tão corrupto que não tinha nada, não tinha carro, não tinha dinheiro no banco nem em casa, aliás nem casa própria tinha". Sandra prossegue seu relato, revelando os mecanismos sórdidos da delação que alimentaram as primeiras prisões: Fizeram uma reunião na calada da noite e entregaram ao interventor, um militar chamado Anacreonte, os nomes das pessoas que deveriam ser presas.” A lista de vítimas foi selada nas sombras, por mãos anônimas que viam na ruptura institucional uma oportunidade de ajustar contas pessoais ou ascender politicamente. Mais adiante, desabafa a escritora, evidenciando como as feridas abertas pela ditadura permanecem vivas na memória afetiva das famílias atingidas: “Ainda tenho a história de meu pai atravessada na garganta.    

 

 


Prefeito de Porto Velho Raphael Jayme Castiel e sua esposa Profª Marise Castiel, quando ainda estavam em Belém do Pará - foto gentilmente cedida por Samuel Castiel


             A ironia cruel da acusação contrastava com a realidade da família Castiel, que viu o patriarca ser demitido sumariamente, sem qualquer processo ou direito de defesa, sob a acusação genérica e infundada de corrupção que servia apenas para encobrir a verdadeira motivação: a perseguição política.

          Ao final, Sandra comenta sobre a anistia concedida a seu pai: "Décadas depois, quando minha mãe estava no fim, a União reconheceu a injustiça e devolveu-lhe pequena parte dos ganhos de meu pai, já que fora demitido sem provas." O reconhecimento tardio, ainda que insuficiente para reparar os danos morais e materiais, ao menos registrou oficialmente a injustiça cometida contra aquele que fora prefeito da capital Porto Velho.

          Cenas insólitas foram proporcionadas pelos dois interventores da época: o capitão do exército Anachreonte Coury Gomes e o tenente coronel Cunha Menezes. Sobre o primeiro testemunhou dona Alzira Rita em depoimento a este escriba: “Seu prazer era desfilar pelas ruas da cidade deixando passar sua arrogância, com um rebenque batendo nas pernas, em tom de ameaça. Foi uma coisa horrível esse tempo.

          O segundo interventor também proporcionou cenas dessa natureza: “montado em seu cavalo percorrendo as ruas da cidade, sempre com o seu ajudante de ordens o acompanhando a pé”, revelou Anísio Gorayeb Filho no filme “Caçambada Cutuba - a história que Rondônia não escreveu”.

 

ARBITRARIEDADES E FERIDAS ABERTAS

         

          O regime militar, que se instalou no País sob o pretexto de salvá-lo do fantasma do comunismo, em seus primeiros momentos de consolidação em Rondônia, deixou marcas indeléveis na história política e social do Território. Cometeu barbaridades como invasões de domicílios por policiais militares, a exemplo do ocorrido com a família do jornalista Inácio Mendes, cuja residência foi arrombada, sob a justificativa de defesa da “segurança nacional”. Essa arbitrariedade se repetiria incontáveis vezes nos anos seguintes. Diversos amigos e companheiros de Renato Medeiros foram recolhidos aos cárceres da Guarda Territorial, no bairro Arigolândia, e também nas dependências do quartel da 3ª Companhia de Fronteira, onde celas improvisadas abrigavam os considerados "subversivos".


 Deputado Renato Medeiros e sua esposa Dona Lygia Medeiros - foto gentilmente cedida pela família

         Além das cassações do prefeito e do deputado federal Dr. Renato Medeiros, os militares praticaram um ato de violência simbólica e material: a ocupação do Palacete Rio Madeira, sede histórica da União Rondoniense dos Estudantes Secundaristas. O imponente imóvel, testemunha da efervescência cultural e política da juventude rondoniense, foi tomado pelos militares e jamais devolvido aos estudantes. Os militares ocuparam o Palacete e lá continuam até os dias atuais. Vale registrar que nas dependências desse espaço histórico funcionou também, à época, uma representação do Centro Popular de Cultura (CPC), braço artístico e pedagógico da União Nacional dos Estudantes (UNE), que promovia atividades de conscientização e expressão cultural entre os trabalhadores e estudantes.        

          Essa violência contra o direito legítimo dos estudantes de Rondônia — o direito à sua sede, à sua memória, ao seu espaço de organização —, permanece como uma ferida exposta a céu aberto, que insiste em não cicatrizar, sendo ignorada pelas autoridades constituídas mesmo após o fim formal da ditadura e as condenações pela tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023. Por muitos anos, o assunto ficou no limbo da história oficial, varrido para debaixo do tapete. É como se a ocupação militar de um bem estudantil fosse um fato menor diante das demais violações cometidas pela ditadura.


Adilson Siqueira entrevistado por Antônio Serpa do Amaral Filho, acompanhado por Zola Xavier e Carmênio Barroso, na frente do Palacete Rio Madeira - 2009  


          Ao que se sabe, a primeira manifestação pública contrária à ocupação ocorreu apenas em 2009, justamente em frente ao Palacete Rio Madeira, quando, em uma entrevista concedida ao escritor e jornalista Antonio Serpa do Amaral Filho, o professor da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), Adilson Siqueira, denunciou, de forma contundente, a ilegitimidade da ocupação, reivindicando a devolução do imóvel aos estudantes e o reconhecimento público da injustiça cometida. O ato contou com a presença do ex-presidente da URES, Carmênio Barroso — ele próprio uma vítima das cassações.

 

CONCLUSÃO: O PASSADO QUE NÃO PASSA

            

                Em Porto Velho - RO, passados mais de sessenta anos do golpe civil militar de 1964, ainda somos obrigados a conviver, cotidianamente, com as marcas deixada pelo regime de exceção, pois o Palacete Rio Madeira segue ocupado pelos militares.

            A história não se apaga com o silêncio. A tarefa de manter viva essa memória não é apenas dos historiadores ou os diretamente atingidos, é de toda uma sociedade que ainda busca, nas ruínas do passado, os alicerces para um futuro verdadeiramente democrático.



*Jornalista

Idealizador e produtor do documentário “Caçambada Cutuba- a história que Rondônia não escreveu” 2019.

Autor do livro “Uma Frente Popular no Oeste do Brasil” Editora Aquarius, 2023.

Autor do texto “Os Comunistas e as Disputas Políticas no Território do Guaporé (1946-1964) no livro “Processos Políticos em Rondônia: Passado e Presente”-Organizado pelos professores João Paulo Saraiva Leão Viana, Patrícia Mara Cabral de Vasconcellos e Barby de Bittencourt Martins. Coleção Pós- Graduação da UNIR. EDUFRO. 2026




































 


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