GREVE GERAL
Nos últimos dias
que antecederam o golpe militar, o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT),
sediado no Rio de Janeiro, convocou uma greve geral em todo o País, numa
tentativa desesperada para garantir a manutenção do governo João Goulart e
frear o avanço do movimento golpista que já se articulava nos quartéis e nos
setores conservadores da sociedade. Em sintonia com o
movimento nacional, os ferroviários da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM),
uma das mais simbólicas e lendária vias férreas do País, protagonizaram um dos
momentos mais significativos da resistência popular em Porto Velho. Atendendo
ao chamado do CGT, aqueles trabalhadores habituados a lutar contra as
adversidades da região e as precárias condições de trabalho, decidiram, pela
primeira vez em sua história, aderir a uma greve de caráter nitidamente
político, transcendendo as tradicionais reivindicações corporativas, para
assumir uma postura de defesa da democracia e das Reformas de Base. Não se
tratava apenas de pautas salariais ou melhorias nas oficinas; era uma tomada de
posição clara em defesa do governo de João Goulart. O gesto dos ferroviários
funcionou como uma centelha em meio dos trabalhadores de Porto Velho. O
movimento grevista rapidamente se alastrou pela cidade, conseguindo a adesão de
outras categorias. Os bancários fecharam as agências, os estivadores suspenderam
as atividades portuárias às margens do Rio Madeira, e os eletricitários
cruzaram os braços. A energia elétrica foi drasticamente racionada, e até mesmo
o fornecimento de água foi interrompido atingindo o tradicional bairro Caiari,
onde concentravam-se grandes números de funcionários públicos e da Madeira-
Mamoré, num claro sinal da força organizativa dos trabalhadores locais e da
extensão da paralisação.
Diante da adesão
crescente e da necessidade de coordenar os rumos do movimento, a direção do
Comando Territorial dos Trabalhadores precisou buscar um local mais amplo para
coordenar os rumos da paralisação. Assim, promoveu a transferência da sua sede
para o Danúbio Azul Bailante Clube, que na época, ficava localizado na esquina
das ruas Carlos Gomes com Tenreiro Aranha, no coração da cidade. O clube tornou-se
o epicentro da resistência civil na cidade, transformando o que, inicialmente,
seria uma reunião de dirigentes em uma verdadeira assembleia popular permanente
transcorrida entre os burburinhos de preocupação e esperança.
A NOITE DA VIGÍLIA
E A CHEGADA DO GOLPE
Na noite de 31 de
março, centenas de pessoas permaneceram aglomeradas no Danúbio Azul e em suas
imediações, tentando captar, em meio ao chiado das ondas curtas dos rádios, os
movimentos de resistência que se esperava acontecessem em todo o País. Acreditava-se
que a classe trabalhadora organizada dos grandes centros, como Rio de Janeiro e
São Paulo, sairia às ruas para defender o governo e as Reformas de Base. Contudo,
à medida que as horas passavam e as informações sobre movimentações militares
em outros estados se confirmavam, somadas aos primeiros rumores de tropas em
deslocamento nas ruas de Porto Velho, a multidão foi aos poucos se dispersando.
As lideranças sindicais, avaliando a correlação de forças desfavorável e
temendo pela integridade física dos manifestantes, orientaram a retirada
pacífica. A resistência, naquele momento, deixava as ruas para se recolher ao
silêncio tenso dos lares, onde cada batida na porta poderia significar a
chegada da repressão. O clima de terror
imposto pelos militares foi, gradativamente, se abatendo sobre a cidade,
levando pânico entre as pessoas que tinham ligações, ainda que remotas, com o
deputado Renato Medeiros. O medo não escolhia hora nem lugar: instalou-se nos
lares, nos locais de trabalho e nas conversas pelos bares e esquinas. O dia seguinte, 1º
de abril, transcorreu com uma aparente normalidade que contrastava
violentamente com a efervescência das semanas anteriores. As ruas estavam
quietas, o comércio funcionava com cautela, e as pessoas se entreolhavam em
busca de sinais do que estava por vir. Criou-se, assim, uma atmosfera de
suspeição generalizada, onde vizinhos desconfiavam de vizinhos e o silêncio
tornou-se mecanismo de sobrevivência. A cidade, antes marcada pelo apito dos
trens da lendária Ferrovia do Diabo, emudeceu-se. O
TERROR NOTURNO E AS CASSAÇÕES
As prisões eram
realizadas sempre à noite, e, na manhã seguinte, os boatos se espalhavam pelas
ruas como fogo em palha seca — fulano foi levado, beltrano também, a casa de
sicrano foi invadida. Ninguém estava seguro, e a incerteza paralisava qualquer
tentativa de reação. Militares do exército
sob o comando do Interventor, capitão
Anachreonte Coury Gomes bateram à
porta da casa do vice-prefeito de Porto Velho, senhor Carmênio Barroso, e o
conduziram sob escolta até o Palácio Getúlio Vargas, sede do poder executivo
territorial. No interior do
Palácio, Carmênio foi submetido a um interrogatório conduzido em tom agressivo
pelo interventor militar. Décadas depois,
em entrevista concedida a este escriba, Carmênio comentou relembrando o
episódio com a mesma indignação dos dias vividos: “parecia que ele estava
se dirigindo aos seus soldados e não a uma autoridade civil”. Carmênio,
que antes de assumir suas funções na prefeitura, fora uma figura atuante como
presidente da União Rondoniense dos Estudantes Secundaristas (URES), viu sua trajetória
política ser abruptamente ceifada. Foi cassado, transformado em um proscrito em
sua própria terra, teve seus direitos políticos suspensos e amargaria décadas
de silêncio e ostracismo, e somente muito mais tarde, já com os cabelos brancos
e o país redemocratizado, é que recebeu a anistia, reavendo simbolicamente os
direitos que lhe foram tomados naquela noite de sombras e silêncio forçado. O prefeito de Porto Velho, Raphael Jayme
Castiel, também foi alvo da perseguição furiosa dos novos detentores do poder.
Sua filha, a escritora Sandra Castiel, em conversa com este escriba, relembrou
a dor familiar com palavras carregadas de emoção e lucidez política, fazendo o
seguinte comentário: “Foi acusado de corrupção. Era tão corrupto que
não tinha nada, não tinha carro, não tinha dinheiro no banco nem em casa, aliás
nem casa própria tinha". Sandra prossegue seu relato,
revelando os mecanismos sórdidos da delação que alimentaram as primeiras
prisões: “Fizeram uma reunião na
calada da noite e entregaram ao interventor, um militar chamado Anacreonte, os
nomes das pessoas que deveriam ser presas.” A lista de vítimas foi
selada nas sombras, por mãos anônimas que viam na ruptura institucional uma
oportunidade de ajustar contas pessoais ou ascender politicamente. Mais
adiante, desabafa a escritora, evidenciando como as feridas abertas pela
ditadura permanecem vivas na memória afetiva das famílias atingidas: “Ainda
tenho a história de meu pai atravessada na garganta.”  |
| Prefeito de Porto Velho Raphael Jayme Castiel e sua esposa Profª Marise Castiel, quando ainda estavam em Belém do Pará - foto gentilmente cedida por Samuel Castiel
A ironia cruel
da acusação contrastava com a realidade da família Castiel, que viu o patriarca
ser demitido sumariamente, sem qualquer processo ou direito de defesa, sob a
acusação genérica e infundada de corrupção que servia apenas para encobrir a
verdadeira motivação: a perseguição política. Ao final, Sandra comenta
sobre a anistia concedida a seu pai: "Décadas depois, quando minha
mãe estava no fim, a União reconheceu a injustiça e devolveu-lhe pequena parte
dos ganhos de meu pai, já que fora demitido sem provas." O
reconhecimento tardio, ainda que insuficiente para reparar os danos morais e
materiais, ao menos registrou oficialmente a injustiça cometida contra aquele
que fora prefeito da capital Porto Velho. Cenas insólitas
foram proporcionadas pelos dois interventores da época: o capitão do exército
Anachreonte Coury Gomes e o tenente coronel Cunha Menezes. Sobre o primeiro testemunhou
dona Alzira Rita em depoimento a este escriba: “Seu prazer era desfilar
pelas ruas da cidade deixando passar sua arrogância, com um rebenque
batendo nas pernas, em tom de ameaça. Foi uma coisa horrível esse tempo.” O segundo interventor
também proporcionou cenas dessa natureza: “montado em seu cavalo
percorrendo as ruas da cidade, sempre com o seu ajudante de ordens o
acompanhando a pé”, revelou Anísio Gorayeb Filho no filme “Caçambada
Cutuba - a história que Rondônia não escreveu”. ARBITRARIEDADES
E FERIDAS ABERTAS O regime militar, que
se instalou no País sob o pretexto de salvá-lo do fantasma do comunismo, em
seus primeiros momentos de consolidação em Rondônia, deixou marcas indeléveis
na história política e social do Território. Cometeu barbaridades como invasões
de domicílios por policiais militares, a exemplo do ocorrido com a família do
jornalista Inácio Mendes, cuja residência foi arrombada, sob a justificativa de
defesa da “segurança nacional”. Essa arbitrariedade se repetiria incontáveis
vezes nos anos seguintes. Diversos amigos e companheiros de Renato Medeiros foram
recolhidos aos cárceres da Guarda Territorial, no bairro Arigolândia, e também
nas dependências do quartel da 3ª Companhia de Fronteira, onde celas
improvisadas abrigavam os considerados "subversivos".
Deputado Renato Medeiros e sua esposa Dona Lygia Medeiros - foto gentilmente cedida pela família
Além das cassações
do prefeito e do deputado federal Dr. Renato Medeiros, os militares praticaram
um ato de violência simbólica e material: a ocupação do Palacete Rio Madeira,
sede histórica da União Rondoniense dos Estudantes Secundaristas. O imponente
imóvel, testemunha da efervescência cultural e política da juventude
rondoniense, foi tomado pelos militares e jamais devolvido aos estudantes. Os
militares ocuparam o Palacete e lá continuam até os dias
atuais. Vale registrar que nas dependências desse espaço histórico
funcionou também, à época, uma representação do Centro Popular de Cultura
(CPC), braço artístico e pedagógico da União Nacional dos Estudantes (UNE), que
promovia atividades de conscientização e expressão cultural entre os trabalhadores
e estudantes. Essa violência
contra o direito legítimo dos estudantes de Rondônia — o direito à sua sede, à
sua memória, ao seu espaço de organização —, permanece como uma ferida exposta
a céu aberto, que insiste em não cicatrizar, sendo ignorada pelas autoridades
constituídas mesmo após o fim formal da ditadura e as condenações pela
tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023. Por muitos anos, o assunto ficou no
limbo da história oficial, varrido para debaixo do tapete. É como se a ocupação
militar de um bem estudantil fosse um fato menor diante das demais violações
cometidas pela ditadura.
 | | Adilson Siqueira entrevistado por Antônio Serpa do Amaral Filho, acompanhado por Zola Xavier e Carmênio Barroso, na frente do Palacete Rio Madeira - 2009 |
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Ao que se sabe, a
primeira manifestação pública contrária à ocupação ocorreu apenas em 2009,
justamente em frente ao Palacete Rio Madeira, quando, em uma entrevista concedida
ao escritor e jornalista Antonio Serpa do Amaral Filho, o professor da
Universidade Federal de Rondônia (UNIR), Adilson Siqueira, denunciou, de forma
contundente, a ilegitimidade da ocupação, reivindicando a devolução do imóvel
aos estudantes e o reconhecimento público da injustiça cometida. O ato contou
com a presença do ex-presidente da URES, Carmênio Barroso — ele próprio uma
vítima das cassações. CONCLUSÃO:
O PASSADO QUE NÃO PASSA Em Porto Velho - RO,
passados mais de sessenta anos do golpe civil militar de 1964, ainda somos
obrigados a conviver, cotidianamente, com as marcas deixada pelo regime de
exceção, pois o Palacete Rio Madeira segue ocupado pelos militares. A história não se
apaga com o silêncio. A tarefa de manter viva essa memória não é apenas dos
historiadores ou os diretamente atingidos, é de toda uma sociedade que ainda
busca, nas ruínas do passado, os alicerces para um futuro verdadeiramente
democrático.
*Jornalista Idealizador
e produtor do documentário “Caçambada Cutuba- a história que Rondônia não
escreveu” 2019. Autor do livro “Uma Frente Popular no Oeste do Brasil”
Editora Aquarius, 2023.
Autor do texto “Os Comunistas e as Disputas Políticas no
Território do Guaporé (1946-1964) no livro “Processos Políticos em
Rondônia: Passado e Presente”-Organizado pelos professores João Paulo
Saraiva Leão Viana, Patrícia Mara Cabral de Vasconcellos e Barby de Bittencourt
Martins. Coleção Pós- Graduação da UNIR. EDUFRO. 2026
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