REPÓRTER PARAENSE MORRE EM MARICÁ

                                 
                                     EDSON TORRES  -  O  REPÓRTER
                                                  Com a camisa do Paysandu  - Foto: Acervo da família

Por Zola Xavier

Tive a oportunidade de conhecer o jornalista Edson Torres de Oliveira e ter tido com ele, em pauta aberta, longos e agradáveis papos, trocando impressões sobre vários aspectos da vida,  incluindo, aí, o futebol. Ele vascaíno e eu torcedor do Mengão, mas em convivência pacífica amalgamada pela paixão comum, o Paysandu, o Papão de Belém do Pará, cidade onde ele nasceu em 11 de setembro de 35. 
Ainda muito jovem Edson começou a trabalhar na rádio e no jornal O Liberal, tradicionais veículos de comunicação de sua Belém.  
                                                                                               
                                                                                                                              Foto: Acervo da família  -  1977
                                                                          

Quando chegou ao Rio de Janeiro, nos anos 70, já tinha consolidado sua militância pelas causas socialistas.  Em meados de 74, eu consegui um emprego no Sindicato Nacional dos Aeronautas, onde ele também  trabalhou fazendo o jornal A Bússola. Estivemos   ligados a mesma tarefa, Edson  como jornalista e eu como contínuo encarregado pela expedição do jornal. Não nos conhecemos nessa ocasião, talvez levado  pelo pequeno período em que fiquei no emprego, conseguido,  tanto eu quanto ele,  graças à influência de alguns diretores do sindicato ligados as mesmas concepções políticas que tínhamos.
Edson ficou por lá por um longo período editando o jornal dos aeronautas, enquanto que eu fui ser diretor de comunicação do sindicato dos Bancários do Rio. Vivíamos, nessa época, a grande campanha pela anistia dos presos políticos; tempos  de incertezas, com riscos permanentes de retrocesso na sombria conjuntura política de então. No Rio de Janeiro, capital, os bancários cariocas e seu sindicato participaram das grandes mobilizações pelas liberdades democráticas. Era o ano de 1979.  
                                                                                                      
                                                                                                                 Foto: Acervo de família
                                                                          Na Revista O Cruzeiro   1977  

Com a aproximação das eleições de 82, Edson adere à memorável campanha que elegeu Leonel Brizola governador do estado do Rio de Janeiro e, para deputado, apoiou os socialistas  Afonso Celso, Afonsinho, deputado cassado em 1964, Acácio Caldeira e Eduardo Chuay.  Nesta eleição, Afonsinho foi o candidato apoiado por muitos médicos do movimento sindical na cidade do Rio de Janeiro,  dentre eles a jovem Dra Janete Valladão.  Talvez esteja aí a  explicação do seu carinho por ela.
Tempos depois,  Maricá nos proporcionou um “reencontro”. Assim foi que nos conhecemos melhor, relembramos passagens comuns que tivemos no movimento sindical carioca, no final da década de 70.
                                                                                                                Foto: Acervo da família
                                                  
Sempre considerei  muito esse homem, porque  era um homem de palavra e não é porque morreu não, quando morre fica bonzinho, né?  Conheci o Edson no Cacique de Ramos no carnaval de 73. Em setembro de 82 foi que ele  me pediu em casamento e sabe pra quem?  Para os meus filhos, foi uma emoção muito grande. Você sabe que eu fui chamada na escola do meu filho, pois ele estava chorando porque eu não queria casar com o pai dele, aí tive que casar né? Nos casamos em  23 de outubro de  82 numa igreja na Barra da Tijuca”  declarou dona  Dalva Torres.

Em nossos papos, vez por outra, ele falava com prazer de suas  reportagens publicadas na revista O Cruzeiro.  Por vários anos Edson  trabalhou nessa histórica revista. Sentia-se, sempre, esse prazer nostálgico quando  relembrava as  inúmeras e  boas reportagens que fizera. Certamente, ali foi o grande manancial para o seu livro   Memórias de um Repórter", trabalho em que  dedicou-se  nos meses finais de sua vida. Se foi concluído,  não sei.
                                                                                                                           Foto: Acervo da família
                                            Na redação do jornal Tribuna de Maricá - Rio de Janeiro

Outro assunto recorrente em nossos papos, foi a luta clandestina de resistência à ditadura militar. Leitor voraz, conhecedor dos clássicos de nossa literatura e de outros tantos  autores estrangeiros, especialmente os franceses, sendo comum ouví-lo, nos encontros que tivemos na redação do jornal A Voz de Maricá, de propriedade do decano da imprensa maricaense, seu Arthur Ribeiro, o Pedro Azulão, falar de suas leituras, de sua  juventude na Belém dos anos cinqüenta, quando percorria os sebos garimpando livros,  todos eles marcados pela sua visão humanista da vida, entre os quais, citava sempre o livro Germinal, obra prima do escritor francês Émile Zola. Claro que a política permeava todos os assuntos e, nesse ponto, Edson era um especialista. Pertenceu à geração dos comunistas românticos. Falava com a segurança de  um repórter que cobriu  sua própria experiência, vivenciada nas redações em que exerceu sua profissão. Eram esses os papos recorrentes, sempre com  suas risadinhas enigmáticas, qual Mona Lisa.
                                                                      
                                                                                      Foto: Acervo da família
                                    Com seu neto Guilherme na escola Sonho da Tia Regina 

Nos seus últimos meses de vida andava muito fraco.
Poucos dias antes de seu falecimento estivemos juntos no escritório de sua amiga Janete Valladão, no centro de Maricá. Estava bastante debilitado, mesmo assim subiu os degraus do pequeno edifício, chegou ofegante, sentou-se e descansou por alguns minutos. Com gestos e palavras entrecortadas conversamos demoradamente,  como  se fosse pela última vez, e foi. Depois, descemos as escadas e nos despedimos, fiquei parado vendo-o cada vez mais se distanciando por entre os transeuntes, numa certa manhã de  junho de 2016.                           
Edson era um jornalista carnal, de pena certeira.  Aqui em Maricá  trabalhou no jornal  “Tribuna de Maricá” e na revista “Justiça e Cidadania” ambos de propriedade de Orpheu Salles. Depois fundou o “Jornal do Município”, sua última trincheira.
Edson sabia onde queria chegar, sem abandonar os seus princípios e sua   dialética marxista, e, neste aspecto, o jornalista não era imparcial, sempre esteve ao lado dos oprimidos. Assim viveu este caríssimo camarada, falecido em 25 de junho de 2016. Deixou em Maricá, sua companheira Dalva Torres, seus filhos Eliana e Abel,  os netos Guilherme, Gustavo, Gabrielli, Maria Clara, João Marcelo e Pedro Henrique e bisnetos.
                                                                                             Foto: Acervo da família
                               Edson Torres, seus filhos Eliana e Abel e a esposa Dalva Torres

Estive no seu enterro. Fui representando, em sentimentos, os ideais comuns que compartilhamos. Fiquei com as memórias do convívio com o  repórter paraense, construídas nos inúmeros encontros que tivemos na cidade que nos acolheu.









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