HISTÓRIAS DE RONDÔNIA CONTADAS EM MARICÁ


                                            Coincidências existem?

   Locomotiva da  Madeira Mamoré abandonada em Porto Velho - 2008                 foto: Zola Xavier                        

Explico: Tive o prazer de trabalhar com João Bosco Gaspar em 2009. João  era o veterano da equipe da Comunicação da Prefeitura de Maricá  no  primeiro mandato de Washington Quaquá. Nesse ambiente, ouvimos  inúmeras histórias colecionadas ao longo de sua  vida profissional  Uma delas nos aproximou singularmente; aquela sobre a sua viagem  pelos trilhos da lendária Estrada de Ferro Madeira Mamoré, à frente de uma reportagem para o programa a Grande Jornada da TV Tupi, isso lá pelos anos 50. Essa história foi  para mim uma grande surpresa, até mesmo espanto, quando soube que  conhecera, na ocasião, meu pai, o jornalista Dionizio Xavier da Silveira.

João Bosco fez parte de uma geração primorosa de jornalistas. Só para se ter uma ideia, trabalhou ao lado de profissionais como Antonio Callado e Nelson Rodrigues, entre outras feras.

Leitor voraz, percorreu  todos os clássicos da literatura, especialmente a francesa, de quem era fã.
Aos 85 anos de idade, poucos dias antes de seu falecimento, ocorrido em 11 de novembro de 2018, João me entregou os originais de uma crônica  de sua autoria denominada “A surpresa do repórter” em que falou do episódio.
                               
                                                       
                              A surpresa do repórter 

Por  João Bosco Gaspar                                                                                                                                                              
Repórter experiente, estamos em 2009. Local: Secretaria de Comunicação Social do primeiro governo de Washington Quaquá, em Maricá. Presentes: além de Zola Xavier, secretário, eu, a Isabel, a querida Bel, Aurino Leite, Catarine Monnerat,   Odemir Capistrano, Felipe Teobaldo na fotografia e a Helô, nossa doce e eficiente secretária Heloísa Dantas. Um time de respeito. Contava eu sobre uma reportagem que realizara, em 1959 , sobre a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, para o programa A Grande  Jornada, da TV Tupi. Lembro que citei uma briga entre um jornalista de lá e o bispo de Porto Velho, ocorrida em 1950, sobre a existência dos mocambos (puteiros, hoje). O padre, lógico, defendia a tradicional família e o jornalista, que veio a se tornar o primeiro defensor dos direitos humanos nos confins da fronteira Norte do País, exigia respeito ao trabalho das mulheres. Foi quando o Zola, quase em transe, me interrompeu, dizendo “o jornalista era meu pai, João”. E prosseguiu: “Em 30 de julho de l950, o bispo de Porto Velho, D. João Batista Costa, publicou um artigo no jornal Alto Madeira desbancando os que defendiam as Malocas,  pois, segundo ele, 'atentavam contra os bons costumes e ofendiam a lei de Deus'. Meu pai, Dionizio Xavier da Silveira, não se conformava e declarou guerra ao bispo em defesa do direito que as mulheres tinham de trabalhar onde bem quisessem. Essa briga marcou época na região".

Voltemos a 2009. O Zola era velho companheiro, frequentador assíduo do Correio da Cidade. Jornal do qual eu era editor. Já naquela época. Zola lutava para escrever a História do Guaporé. Um patriota abnegado.

    
    João Bosco Gaspar na sua trincheira.                                          foto Zola Xavier  -    Maricá   2009



Nesse vai e vem histórico, estamos outra vez em 1959. Conseguimos junto à direção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, uma litorina, para nossa equipe da Grande Jornada (eu, o Domênico  Penacchio, cinegrafista da Persin Perrin Produções, empresa encarregada das filmagens, e o Alcino, assistente) acompanhar o trem, desde Porto Velho a Guajará Mirim, cerca de 360 quilômetros. Conseguimos.

                                                                                                                      Foto: Basinho  -  2008

Amaral Neto, Zola Xavier e Tiago Valladão em passeio pela histórica ferrovia Madeira Mamoré                                                                                                                    

Na véspera da viagem, como a comprovar que o preconceito ainda existia, recebemos depois do jantar, no Porto Velho Hotel, hoje sede da Universidade Federal de Rondônia, a visita de quatro simpáticas senhoritas.
“Seu repórter, disse uma delas, temos que ir para Guajará em busca de trabalho e o padre (o bispo de lá) proibiu que o trem nos levasse. Vocês levam a gente ? Claro, respondi, será um prazer”.
Dito e feito. No dia seguinte, uma quarta-feira, o trem teve que atrasar sua saída em duas horas a fim de que a cerração subisse e o Domênico tivesse luz para filmar.
Na estação da cidade, de mala e cuia, estavam as quatro donzelas. Depois de se acomodarem devidamente, começou a epopeia. O pernoite em Abunã foi uma festa. Em respeito ao  bispo, não vou narrar. O certo é que nas cercanias de Guajará Mirim desembarcamos as jovens e seguimos em nossa grande jornada. 
O dito é verdade. 
                                                                                                                                     
                                                                                                          Foto: Carlos Eduardo ( Cadu )

      Zola Xavier e João Bosco Gaspar sob o Remo Guaporé                                               Maricá 2019   



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